Desapareceu. Ficou o cheiro do almoço e a luz quente do meio-dia
que entrava na cozinha pouco iluminada. Ficou a textura do chão de madeira e
das mobílias. Ficaram as folhas caídas no chão do quintal, amarelas e velhas.
Ficou o meu menino, e o carinho. Desapareceu. Hoje ficam as vestes pretas e as
lágrimas quentes, fica o sal de Portugal na lembrança, fica o olhar perdido na distância.
Adeus
terça-feira, 26 de março de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Quando paramos para pensar nas coisas, parece que passámos a
vida toda a dormir. Como se os momentos passados, fossem passados só. Dormidos.
Dormentes. Quando chega o fim, quando chega a hora da verdade e abrimos
finalmente os olhos para perceber o que está a nossa volta, as cores são
diferentes, os sons são diferentes, os sabores são diferentes. Caímos em nós e
percebemos que as pessoas-máquinas não existem. Que somos todos animais. Que a
pessoa mais forte do mundo também chora, e que as pessoas que estão ao nosso
lado são tudo. Como se nos desinstalassem o antivírus quando saímos de perto
deles. O amor, que já julgávamos ser o mais importante, torna-se ridículo.
Torna-se impossível de tão grandioso. E os nossos olhos, que viram turvo
durante tanto tempo, cansam-se depressa, velhos e usados de tanta verdade. E a
verdade é muitas vezes cruel.
Apercebo-me tarde que a inocência é o mais belo adjetivo que
se pode ser. Tudo dói com mais força quando se é inocente, dai haver tão pouca.
Dai ser impossível de se manter, obrigados a crescer depressa demais para que
não nos tirem os olhos. E a saudade, aquela tão portuguesa, faz-me finalmente perceber o porque de para passar o Bojador, se
ter de passar além da dor.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Agarra-te ao teu dinheiro e às tuas coisas. Esquece os teus
sonhos. Queres ser mãe, queres ter um bom casamento, um bom marido e os filhos
mais queridos de sempre. Esqueceste o essencial. Espero que um dia te apercebas
e não seja tarde demais. Tu dizes que não percebes como é que aqueles miúdos chegaram
onde chegaram, não percebes como é que os pais deixaram. E tu que és um tão bom
exemplo disso. Agarra-te ao teu dinheiro com força. Vais ficar amarga. Vazia.
Fútil. Tenta viver assim. Tenta imaginar-te com os teus sonhos partidos.
Perdidos. Tenta comprá-los. Tenta viver essa vida vazia. Tenta viver sem amor.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
É incrível como as coisas nos tocam. É inexplicável a
qualidade e a força das coisas. Das coisas enquanto objectos. Que com o passar
do tempo se tornam mais que isso. É inacreditável a quantidade de informação
que consegue guardar um simples cartão. Que certo dia nos fez pensar e lembrar
que fomos amados. Um cartão sem nada escrito, ou nada que importe pelo menos. A
nossa capacidade de guardar imagens feitas na nossa cabeça. Criadas na nossa
cabeça. Hoje peguei num cartão que me fez lembrar de ti. De repente foi como se
me amasses de volta, de novo. Como se o teu amor não tivesse morrido, foram
segundos em que peguei naquele cartão como se da tua mão se tratasse. Sorri.
Olhei e sorri mais um bocadinho. Dos momentos que foram bons. No fim, passei
pelo lixo e deixei-o lá. O cartão. As lembranças ficaram, mas ficam melhore
escondidas, mesmo as não lembradas. Deixei o teu amor morto para trás, vim
agarrar um novo.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
E morreram juntos. Os dois, separados morreram juntos.
Abraçaram-se pela última vez no dia em ele correu de armas e bagagem para a
bandeira manchada de sangue. Ele iria sempre pensar nela como pensou naquela
noite, ao olhar as estrelas e a queda delas. Ela iria sempre pensar nele como
naquele fim de tarde, em que o sol se mergulhava mais uma vez no mar infindável.
Ele ficou por terras desconhecidas, como muitos outros, desaparecido. Famílias
destroçadas. O que viveu foi a lembrança e a certeza que quando ela olhava para
tudo o que tinha belo dentro, se lembraria dele. Ainda sentia os seus braços em
volta de si quando passava sua mão pelos seus braços. Os olhos dela nunca mais
brilhariam como brilharam. Brilhariam se os lábios dele voltassem a tocar nos
dela. Mas a esperança morreu com ele, a mascara nasceu. Aprendeu a esconder
lágrimas por baixo de sorrisos, aprendeu a usar o seu disfarce de dama. Mas no
seu íntimo, nos seus momentos seus, em que se escondia do mundo e se sentava a
ver o sol a mergulhar no mar, a olhar as estrelas e a queda destas, ainda
chorava. E ainda chorava no dia em que, rodeada dos seus filhos e netos, caída no
chão, atacada por uma paragem cardíaca, morreu pela segunda vez.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Nesta época associada a dar. Nesta quadra ligada à solidariedade,
em que as pessoas aparentam querer ver o outro feliz, embora continuem a gritar
filho da puta quando passam o sinal vermelho, ou param com o amarelo. Eu
aproveito para ser egoísta, para pensar em mim e em todas as coisas que não
tenho. Não estou a falar de plástico. Paro para ouvir homens a caminharem no
escuro, e deixo o meu corpo liberto a todos os sentidos. Paro para saborear
toda a tristeza que se apega do meu coração, a escuridão. E deixo-me ao ritmo
de passos baixos e baços, apago as luzes, danço no escuro. Nesta época que está
associada ao amor, sinto-me vazio, sinto-me sozinho. Tomo o pequeno-almoço
sozinho, almoço sozinho, e mesmo ao final da noite, quando estiver cá gente,
vou estar sozinho, vou continuar vazio. De olhos no chão, com as luzes piscarem,
e a dançar no escuro.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Este sentimento de impotência é uma coisa que nunca irá
embora. Esta sensação de ser completamente impotente perante os sonhos, esta incapacidade
de conseguir prever os pequenos passos que me poderiam levar lá. Eu costumava
esperar. E esperava, sentado na esperança, que um dia se fizesse luz. Hoje as
minhas entranhas apodrecem quando dou conta que já não espero. Que já não há esperança
para me sentar. Que os sonhos estão mortos. Por vezes até me sinto estúpido de
alguma vez ter acreditado. Quando eu costumava esperar. Incapaz de ir em frente
ou voltar para trás. Como se de mãos atadas atrás das costas, acabasse por me
renegar e aceitasse ficar preso. Consciencializado que os sonhos são só para
alguns. Eu costumava esperar, hoje limito-me a sonhar com os sonhos, e acordar
triste.
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