Acordo contigo todos os dias. Acordo e olho-te ainda no
escuro. A quilómetros de distância, tu estás dentro dos meus olhos como estás
dentro do meu peito. E se bate com força, és tu a crescer cá dentro. Acordo
contigo todos os dias. Mesmo que por ora seja difícil de controlar o nosso
espaço e o nosso tempo. Mesmo que as tuas mãos não estejam a distância
suficiente para as apertar. Acordo contigo todos os dias. E à noite deito-me
contigo. Contigo acredito que o amor possa ser suficiente. Que afinal o amor dá
de comer. E mesmo que não dê, mesmo que o meu corpo não resista, mesmo que o
tempo ou a distância nos deixe de mãos vazias, valerá a pena. Contigo vale a
pena e o amor vale a pena. Acordo contigo todos os dias de manhã, e deito-me de
noite, com ou sem o teu corpo, e olho-te os olhos, sinto o teu cheio… e peço um
desejo.
domingo, 8 de julho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
S de Jéssica
Os amores e as paixões. As compaixões. Que se juram, que se
trocam, amarrotam, se destroem. Na tentativa de ter nos olhos o brilho a que
muitos nunca tiveram direito. Talvez os que o tiveram em demasia em parte da
sua vida estejam impedidos de o ter. Porque o idealizam. Porque os ideais são
impossíveis. Pelo menos os ideais futuros. E eras tu Jéssica. Eras tu quem eu
queria que me pertencesse a pele. A tua posse dos meus olhos não chega. Tu e
esse teu vestido branco. No dia em que te vi deitada naquele campo. Eu sabia
que um dia serias minha. Foi pena ter sido apenas naquele dia. Mas porque é que
tiveste de reagir daquela forma? Podíamos ter casado. Teríamos bonitos filhos
de cabelo preto. Pequeninos e rechonchudos como tu. Podíamos ter voltado àquele
campo outra vez. De onde tu não saíste. De mãos dadas. Podíamos ter feito
piqueniques, podíamos ter ido ao banho ao rio. Comprávamos uma casa no campo,
ou na cidade, como quisesses. Agora não fazes mais nada que ver a lua. E
podíamos ter visto a lua juntos. Escusavas de ter dito que não. E eu escusava
de ter reagido daquela forma. Seria perfeito. Mas os ideais futuros são
impossíveis. Assim como esses teus lábios pintados de vermelho são impossíveis,
e as tuas maçãs do rosto pintadas de vermelho são impossíveis e os meus
pensamentos. Mas os teus olhos pintados de roxo foram possíveis, mas esses não
faziam parte dos meus ideais. Agora os teus olhos deixam-me triste. E foste só
mais uma. E agora és só a lembrança acabada. E estás Só. E foi do S de só que veio o
teu nome, Jéssica.
Já não sinto nada. Nem o tal carinho que eu julguei ser para sempre. Como se o impossível fosse possível e a indiferença agora fosse mais forte. Tudo o que foi, passou, evaporou-se. Já não és nada. Melhor que o tempo, só a distância. Afasta tudo. Até o que julguei ser para sempre. Até quem julguei ser para sempre. Desapareceu.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Hoje sonhei connosco
Hoje sonhei connosco. Juntos. No futuro. Eu e tu de mãos
dadas como um casal que resultou e resulta. Como se os desentendimentos
tivessem sido nada, não tivessem passado de nada. Como se o desejo fosse suficiente.
Hoje sonhei contigo de mãos dadas comigo. Contigo num mundo desconhecido, numa
cidade desconhecida, com véus que se prendiam à tua cabeça e se arrastavam no
chão atrás de ti. Com passados que se prendiam à cabeça dos dois e se
arrastavam atrás de nós, que nos amarravam os pulsos, os meus aos teus, que nos
guiavam e liam os olhares, que apontavam para um futuro na mesma direcção. Hoje
sonhei contigo como se o amor fosse suficiente, como se o que sentimos agora e
não sabemos bem o que é, fosse suficiente. Como se eu fosse suficiente para ti,
e tu para mim. Hoje sonhei connosco com saudades, nós com saudades de tudo o
que vivemos e eu com saudades do que podemos viver, ou ter vivido. Hoje sonhei
connosco para acordar com o coração maior que ontem, mas amarrado, engaiolado,
preso à espectativa e à resposta que quero e acredito poder vir da tua boca.
Hoje sonhei connosco para despertar com as maiores certezas e as maiores dúvidas
do mundo.
terça-feira, 5 de junho de 2012
E morro da saudade, mesmo antes de um de nós partir.
Há vidas e vidas. Há vidas de saudades e prazer, de luxo e
doer. De quem partiu à procura e encontrou na distância a prata. Há vidas de
amor e famílias, de heranças vazias, mas de heranças de ouro, já que não há
maior presente e poder que a educação no amor. Já vi o meu destino em rodas de
autocarros, em rodas de carros e abraços apertados matinais maternais. Agora
que o futuro me mostrou as asas, que me abriu os olhos a viagens infinitas e
saudades quase inesgotáveis, agora que as portas da maturidade se abriram, para
me mostrar que o futuro que era o futuro não existe, que o futuro do passado
não existe… fico perdido no espaço e no tempo como se a luz não existisse, como
não houvesse uma saída, como se por todo o lado fosse perder metade do meu
coração. Trago-te as mãos ao peito, trago os teus lábios comigo, para eu
conseguir sentir o sabor a sal, ou fico com eles guardados nos bolsos para te
dar a ti a calma do mar. Como se existisse uma saída certa, como se uma das
portas fosse a correcta, como se o futuro fosse pleno por um dos lados, a minha
cabeça explode de pensamentos exaustivos e complexos… E morro da saudade, mesmo antes de um de nós partir.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Menina dos pés descalços
Andava com os pés cheios de feridas. Ainda ensanguentados
de todos os detritos que pisou no caminho com os pés virgens, não habituados a
caminhos adversos. Sofrida e lenta, a caminhada chegava a um ponto em que a dor
se transformara em dormência. Os vidros e as pedras que pressionavam a carne já
vermelha, nos sítios em que a pele se tinha rompido, já eram parte de si, a dor
era parte de si. Já saiu à rua descalça, saltou de sua casa para os braços de
um homem. O homem da sua vida, pensara. Mas o colo gastou-se infelizmente. Os
seus pés de menina tocaram o chão com uma queda, os braços que a amparavam e a
levantavam do mundo saíram debaixo do seu corpo e deixaram-na sujeita à força
da gravidade. Caiu. Na altura não pensou ser preciso precaução, aqueles braços
estariam sempre ali, fieis, nunca se cansariam, nunca se ocupariam com outros
saltos. Enganou-se. Caiu. Da queda até ao momento em que se levantou não sabia
muito bem o que se tinha passado, pensava ter sido uma distração e ficou
sentada, sem força para se levantar, sem vontade de se levantar, à espera dos
velhos braços cansados. Quando deu por si os seus braços já eram de outra, e
pela primeira vez na sua vida teve de usar os seus, teve de usar as pernas e
teve de usar a força que não sabia ter. Levantou-se. Devagar, com a força dos
seus braços e pernas fracas, levantou-se. E caminhou, com os seus pés virgens,
até casa… Onde aprendeu a sarar as feridas que lhe ficaram para sempre e
aprendeu a viver com as cicatrizes de uma das maiores quedas da sua vida. Mal
sabia ela que tinha sido só a primeira de muitas, mal sabia ela que as
cicatrizes que tinha ganhado, iriam ser um dia a sua salvação.
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