terça-feira, 21 de março de 2017

Quando o meu coração acorda vazio, ou se esvazia pelos furos das balas perdidas, entras tu de rompante no teu barulho silencioso, no teu sorriso esgueiroso,á procura do meu que já lá está, por saber que ai vens. Sempre de mansinho abres de vagar o teu caminho, e com a tua varinha, enches-me de calma e alegria, e beijas me no espaço, até sentir no teu abraço, o meu coração a encher.

terça-feira, 7 de março de 2017

O pequeno coiote caminhou de mansinho, pata ante pata sem marcar o seu caminho. Fixava o ponto do ventre à chegada, preparando-se para num circulo felpudo ser amada. As pestanas batiam suavemente entre si, e os dentes escondidos no sorriso descontrolado, já o focinho aninhado na paixão até ao fim, e o coração no amor para sempre mergulhado.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Já alguma vez quiseste morrer?
Eu penso a toda a hora nisto. No momento em que a inexistência toda conta de mim. Sou finalmente livre para ser como quero, para ser quem quero, para ser vazio, ser nada.
A dor que se apoderou de mim em tempos hoje é dormência. A dormência que me desprende de tudo, e ao mesmo tempo me apega a tudo como parasita, a viver às contas do sangue dos vizinhos. A viver da energia que toda a gente me manda. Eu sou um sortudo, sempre fui. Toda a gente me dá tanto amor que já não quero mais viver. Assim como não quereria se me dessem desamor.
Eu só queria viver se morresse. Quando estiver morto vou talvez querer estar vivo.
Eu apego-me de tal forma a tudo o que aparece, e procuro sempre tanto a perfeição, que quando roço quero morrer. Eu não quero ser bom, eu não quero ser o melhor. E nem que eu finja, nem que eu force ser mau, nem que me tenha de desapegar de tudo para ser mau. Nem que me tenha de desamarrar de todos para não me quererem. Para ter de procurar de novo, falhar, ser infeliz, e querer morrer. Mas desta vez com tristeza, deixar a dormência para trás e agarrar a miséria, para que tenha força finalmente. Para que consiga ser como tu foste, para que consiga fazer como fizeste, como sempre quis fazer como fizeste. Até nisto foste à minha frente. Procuro a felicidade negada, procuro a miséria escondida, procuro o desamor e a inexistência. Procuro a morte.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Olhos rasgados e cara cansada, satisfeita de ter chegado finalmente o fim do dia. O perfume que espalha sem saber, relata aos presentes o que faz durante todo o dia. E as mãos a idade que realmente tem. Leva os tempos livres bastante ocupados na mente, a rotina que lhe foi empregue pela pressão familiar e social. Toda ela é pressão.
Ouve-se o ruído constante do comboio a deslizar nos carris, algumas vozes que conversam sozinhas e o silêncio possível pós trabalho, fecha os olhos, morde os lábios. São os seus minutos de paz.

Sinto te a ir embora devagarinho, como olhos a acordarem de manhã e a habituarem se à luz que julgavam ser suficiente. Já cansada de a casca não bater certo com o miolo, como a maior parte. Já moras dentro de mim, és a primeira coisa que penso de manhã e a última à noite. Talvez seja só solidão, talvez seja paixão, não estou bem certo. Olhos de lobo, pele de carneiro e garras em mim a despegarem devagar sem deixar tempo de sarar. A depressão talvez me mate desta vez.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A poesia que mais gosto é das coisas simples, como o comboio a chegar, uma pessoa a aconchegar-se do frio ou a ponte lá ou fundo a espreitar por cima dos prédios. O quente que sinto dentro de mim por te ter perto dos homens, a cheirarem te o sangue de menina a quilómetros, é o equivalente aos mais ásperos ventos a entrarem nos meus pulmões inflamados. Porque a poesia faz de mim assim, a sentir tudo com mais força, até o sol que varre as árvores.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Desculpa. Mas pessoas vazias é das coisas que mais me irrita na vida. Detesto o modo como falas de gente como se fossem objectos. Detesto como para ti a ejaculação é a parte mais satisfatória da vida. Tenho pena de ti. Tenho mesmo. Pões me no pedestal tão alto e eu a ti ponho-te no meio dos demais. Não tenho conversa para ti, cansas-me com duas palavras. Desculpa. Mas pessoas vazias quero as longe. Nunca mais perco o comboio.