quinta-feira, 14 de julho de 2016
Diário ep 2 | Social
Ultimamente tenho feito um grande esforço para colmatar um grande erro do meu passado. Ser anti-social como à puta que pariu. Tenho tantado falar com gente nova e falar com gente velha, tento comunicar com gente que não conheço e que conheço mais ou menos, tento ser um bocado mais interesseiro do que o que era e tento dizer boa dia a toda a gente. Tenho aprendido umas coisas com isto, tenho aprendido que eu à distancia visto assim pelo buraco da fechadura posso parecer interessante, que falo mais facilmente com gente com 10 anos a mais que eu e que sou uma seca. Hoje percebo porque é que sou uma seca a maior parte das vezes, porque sou medroso, e percebo também porque é que posso parecer mais interessante para pessoas que não quero agradar, porque com essas não há grande medo. Arriscar não é, definitivamente, comigo. Aprendi que existem tantas pessoas iguais no mundo que só ficas sozinho se tiveres azar, que as pessoas existem em padrões, e que se te lançares uma rede para fora de pé, se tocares musica alto o suficiente ou afinares a pontaria da pressão de ar, qualquer dia pode te calhar um sardinha, uma bailarina da formada na Bolshoi, ou uma alvéola-citrina.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Diário ep1 | Entranhas
Em grande parte do tempo em que sobrevivo, estou dormente. Acompanhando a tendência da sociedade. Agarrar nas coisas como mais que isso, com o cérebro paralisado pela luz que se reflecte na minha cara cegando-me e adormecendo-me do que me rodeia e iludindo-me que sou feliz.
Por outras vezes (muitas vezes) penso em mim, na minha vida, no estado da minha vida, nas pessoas que tenho e que tive, na carreira que não tenho, nas decisões que tomei, nas escolhas que fiz e nas que não fiz. Penso no meu caminho, passado até ao futuro, nas saídas, nos desvios, nos reencontros, nos desencontros e nos outros, os outros de fora, e os outros de dentro. A forma de lidar com tudo isto é querer morrer. Sempre. Se não posso ser quem queria ser, mais vale não ser, mais vale dar um tiro na cabeça. Essa imagem repetida ao expoente da loucura, nunca doce. Tão repetida que aqui dentro já não há alarme, "qualquer dia vai acontecer". Quando penso nisto tantas vezes que é quase verdade a primeira coisa que me demove é a cara da minha mãe, essa imagem, a imagem de uma pessoa morta por dentro e de preto por fora, os olhos vidrados. O resto mais cedo ou mais tarde aceitaria. Quando me dizem que não percebem a atitude a minha resposta raramente é sincera, eu compreendo perfeitamente. Gostava de não perceber. Hoje olho para as minhas mãos, pousadas no teclado que vos escreve e vejo alguém que anda á deriva, sem sentido, raramente me reconheço no espelho e raramente tenho energia suficiente para me querer reconhecer. Cheio de imagens na cabeça, flashes, sons e cheiros, estou a morrer aos poucos... e se for para morrer, quero que seja de uma só vez.
Por outras vezes (muitas vezes) penso em mim, na minha vida, no estado da minha vida, nas pessoas que tenho e que tive, na carreira que não tenho, nas decisões que tomei, nas escolhas que fiz e nas que não fiz. Penso no meu caminho, passado até ao futuro, nas saídas, nos desvios, nos reencontros, nos desencontros e nos outros, os outros de fora, e os outros de dentro. A forma de lidar com tudo isto é querer morrer. Sempre. Se não posso ser quem queria ser, mais vale não ser, mais vale dar um tiro na cabeça. Essa imagem repetida ao expoente da loucura, nunca doce. Tão repetida que aqui dentro já não há alarme, "qualquer dia vai acontecer". Quando penso nisto tantas vezes que é quase verdade a primeira coisa que me demove é a cara da minha mãe, essa imagem, a imagem de uma pessoa morta por dentro e de preto por fora, os olhos vidrados. O resto mais cedo ou mais tarde aceitaria. Quando me dizem que não percebem a atitude a minha resposta raramente é sincera, eu compreendo perfeitamente. Gostava de não perceber. Hoje olho para as minhas mãos, pousadas no teclado que vos escreve e vejo alguém que anda á deriva, sem sentido, raramente me reconheço no espelho e raramente tenho energia suficiente para me querer reconhecer. Cheio de imagens na cabeça, flashes, sons e cheiros, estou a morrer aos poucos... e se for para morrer, quero que seja de uma só vez.
terça-feira, 12 de julho de 2016
Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. Eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. O amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. O amor é sermos fracos. O amor é ter medo e querer morrer.
José Luis Peixoto
domingo, 3 de julho de 2016
quarta-feira, 29 de junho de 2016
A paisagem da cidade banha-te as costas, o sol ilumina-te de dourado, é a tua cor... Tu encostada ao muro, e eu fantasma, debaixo da sombra rendilhada pelas folhas da árvore velha que está ao teu lado. Observo-te e duvido se o tempo realmente parou, serena como a brisa que te acaricia as pernas e põe o teu vestido a dançar. Olho-te, e tu olhas para ele, neste momento temos algo em comum. Enquanto compartilhamos o mesmo espaço, ambos apaixonados, a metros um do outro, olhamos para quem queremos abraçar... é o mais próximo que alguma vez vou estar do teu amor. Ele, agarrado a uma guitarra que soa melhor que todas as outras, e tu, ao lado dele, descalça, encostada ao muro, alimentas-te de toda a energia viva da terra, fazes tudo o resto parar de existir, enquanto cantas pela voz de tudo o que é bom. A paisagem da cidade banha-vos as costas e ilumina-vos de dourado, a vossa cor, juntos, enquadrados no único sitio no mundo onde o tempo anda. O quadro perfeito, em tons do castanho claro do teu cabelo agora dourado, e o verde da árvore velha, com cheiro a terra e o encadeamento de notas mais bonito de sempre. E eu fantasma, ali, como se não estivesse, como se nada mais existisse, ainda na sombra da antiga árvore, espero que venha o meu tempo.
domingo, 26 de junho de 2016
Tu inspiras-me. Dás me uma força que há anos que não sentia. E isso é melhor que qualquer outro tipo de amor. A tua energia, a tua garra que eu já admiro. A tua vontade de viver, a tua vontade de sentir. Quero-te ao pé de mim. Seja onde for que estejas, seja onde for que eu esteja. Quero-te junto a mim. Quero que sintas o meu peito e ouças o que tenho guardado quando penso em ti. Quero que isto continue. Seja por que caminho for, quero-te ao meu lado, de braço dado, de segredos no ouvido. Quero ser o teu melhor amigo. Sinto a pele e sinto a dor permanente no joelho, sinto o meu corpo de novo e o chão por baixo dos pés. Sinto a pele quente, sinto o passarinho a voar perto. Estou de volta.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
É para as tuas palavras que corro. São como um abraço apertado que me tira momentaneamente a solidão tão minha, já enraizada. Foi para as tuas palavras que corri e foram elas como os teus braços, que me receberam de volta. Precisei livrar-me do feitiço pesado que me pesava, que me escamava a pele e me mantinha numa neblina eterna, continua, em que aprendi a viver. Para te ver lá do fundo como uma mão que me puxa para fora e perceber quem eras. Foi para a tua luz que corri quando estava enterrado, quando a sombra me atava os pés. Agora que a luz fina me ilumina a cabeça a partir do peito, eu sombra meio iluminada, e tu parte da luz que me ilumina, vejo, ainda rente ao chão, mas já sem neblina, as primeiras pedras da calçada, os primeiros tufos de relva a balançar ao vento. E tu, mão inocente, não percebes o quanto umas simples palavras fazem toda a diferença.
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