domingo, 8 de maio de 2016

Ainda sinto o peito cheio

Ainda sinto o peito cheio. Pesado. Triste.
Ainda sinto os olhos cansados. Evito o sono, para não ter de acordar. Para não ter de reviver a lucidez da verdade. Os gritos, o barulho, a confusão. Levam me à loucura. E o meu quarto não é pequeno nem escuro o suficiente.
Ir embora é sempre tão difícil. Ambos cansados. Ambos fartos. Ambos demasiado conscientes e conformados com o fim para o rumo torto que as coisas levaram.
Ainda sinto o corpo esgotado. Sem força.
Ainda te ouço a andar descalça no corredor.
Dizer adeus ao amor é tão difícil.
Fazes me falta.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Repost - O meu texto favorito escrito por mim:


Acordo contigo todos os dias. Acordo e olho-te ainda no escuro. A quilómetros de distância, tu estás dentro dos meus olhos como estás dentro do meu peito. E se bate com força, és tu a crescer cá dentro. Acordo contigo todos os dias. Mesmo que por ora seja difícil de controlar o nosso espaço e o nosso tempo. Mesmo que as tuas mãos não estejam a distância suficiente para as apertar. Acordo contigo todos os dias. E à noite deito-me contigo. Contigo acredito que o amor possa ser suficiente. Que afinal o amor dá de comer. E mesmo que não dê, mesmo que o meu corpo não resista, mesmo que o tempo ou a distância nos deixe de mãos vazias, valerá a pena. Contigo vale a pena e o amor vale a pena. Acordo contigo todos os dias de manhã, e deito-me de noite, com ou sem o teu corpo, e olho-te os olhos, sinto o teu cheio… e peço um desejo.

Um dos meus poemas favoritos de sempre, que hoje se encaixa em mim como nunca


"devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo. 
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo. 
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe. 
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos. 
foste eterna até ao fim. 
José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão" 

domingo, 1 de maio de 2016

Sou perigoso. Eu sei que tenho tendência a querer tirar uma colherzinha de chá só para provar. Acabo por me contentar com o cheiro e o observar da textura... Mas eu gosto tanto de ti, arrependo me sempre e rezo um Avé Maria pelo pecado da gula. Afinal, o que é que pode ser melhor que chocolate com avelã?!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A miséria adora-me, e eu adoro-a tanto. É a dor aguda e os choques que sinto nas costas, quando é pedido mais de mim.
A miséria adora-me, eu também a adoro. É o azar que me persegue e assombra assim que os olhos passam o topo do muro.
Não há mais nada para mim, quero desnascer como o Branco só porque não quero acabar com a de ninguém.
Nuvem negra, poeira densa.
Que me arrasta pra baixo, puxa pra trás.
A miséria adora-me, é a minha única amiga. É a esperança dos desesperados. É uma puta de merda, mas não é o fim.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"God doesn't ask if we accept this life. There is no choice. Life is forced upon you. The only choice is how we live it. Or not. That's a choice as well."

terça-feira, 11 de março de 2014

Simetria

Estes sapatos já estão tão velhos, a solas estão mais que gastas, e os buracos no
fundo já me começam a magoar os pés. Parece que todo o corpo me doí com estes sapatos
Mas gosto tanto deles, foram os meus primeiros sapatos de senhor, foi com eles que
cresci e me tornei o que sou hoje. Foi com eles que passei os melhores momentos em
Barcelona e em Dublin. Deixa-me triste olhar para eles assim, já tão velhos e usados.
Podia bem ter tomado melhor conta deles, podia até ter mandado por umas solas novas,
e ter reparado aquele rasgão que começou por ser pequeno. Pensei sempre que
iria ser mais fácil e barato comprar uns novos, mas agora deixa-me de rastos vê-los ir
embora sem remédio. Velhos e podres por dentro. E isto era tão mais fácil se estivesse
a falar de sapatos.