domingo, 1 de maio de 2016

Sou perigoso. Eu sei que tenho tendência a querer tirar uma colherzinha de chá só para provar. Acabo por me contentar com o cheiro e o observar da textura... Mas eu gosto tanto de ti, arrependo me sempre e rezo um Avé Maria pelo pecado da gula. Afinal, o que é que pode ser melhor que chocolate com avelã?!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A miséria adora-me, e eu adoro-a tanto. É a dor aguda e os choques que sinto nas costas, quando é pedido mais de mim.
A miséria adora-me, eu também a adoro. É o azar que me persegue e assombra assim que os olhos passam o topo do muro.
Não há mais nada para mim, quero desnascer como o Branco só porque não quero acabar com a de ninguém.
Nuvem negra, poeira densa.
Que me arrasta pra baixo, puxa pra trás.
A miséria adora-me, é a minha única amiga. É a esperança dos desesperados. É uma puta de merda, mas não é o fim.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"God doesn't ask if we accept this life. There is no choice. Life is forced upon you. The only choice is how we live it. Or not. That's a choice as well."

terça-feira, 11 de março de 2014

Simetria

Estes sapatos já estão tão velhos, a solas estão mais que gastas, e os buracos no
fundo já me começam a magoar os pés. Parece que todo o corpo me doí com estes sapatos
Mas gosto tanto deles, foram os meus primeiros sapatos de senhor, foi com eles que
cresci e me tornei o que sou hoje. Foi com eles que passei os melhores momentos em
Barcelona e em Dublin. Deixa-me triste olhar para eles assim, já tão velhos e usados.
Podia bem ter tomado melhor conta deles, podia até ter mandado por umas solas novas,
e ter reparado aquele rasgão que começou por ser pequeno. Pensei sempre que
iria ser mais fácil e barato comprar uns novos, mas agora deixa-me de rastos vê-los ir
embora sem remédio. Velhos e podres por dentro. E isto era tão mais fácil se estivesse
a falar de sapatos.

sábado, 8 de março de 2014

Fornalha velha, cheia de restos de carvão, cinzas e brasas que ainda doem de tão acesas. Ainda sinto o cheiro do fumo negro que nunca se foi e que dia-a-dia me parece maior e mais denso. Oh fornalha velha, que me continuas a matar, a corroer devagarinho, com ódio e carinho, feitos de mágoa e vinho, de impotência e dor. Como se o tempo não passasse no coração, envelhecendo a pele lentamente, mas agora consciente que tudo é tão em vão. Continuo a desnascer, a desvanecer e desaparecer, até à marca apagada, que será a minha chegada, à idade de morrer.

terça-feira, 26 de março de 2013


Desapareceu. Ficou o cheiro do almoço e a luz quente do meio-dia que entrava na cozinha pouco iluminada. Ficou a textura do chão de madeira e das mobílias. Ficaram as folhas caídas no chão do quintal, amarelas e velhas. Ficou o meu menino, e o carinho. Desapareceu. Hoje ficam as vestes pretas e as lágrimas quentes, fica o sal de Portugal na lembrança, fica o olhar perdido na distância. Adeus

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Quando paramos para pensar nas coisas, parece que passámos a vida toda a dormir. Como se os momentos passados, fossem passados só. Dormidos. Dormentes. Quando chega o fim, quando chega a hora da verdade e abrimos finalmente os olhos para perceber o que está a nossa volta, as cores são diferentes, os sons são diferentes, os sabores são diferentes. Caímos em nós e percebemos que as pessoas-máquinas não existem. Que somos todos animais. Que a pessoa mais forte do mundo também chora, e que as pessoas que estão ao nosso lado são tudo. Como se nos desinstalassem o antivírus quando saímos de perto deles. O amor, que já julgávamos ser o mais importante, torna-se ridículo. Torna-se impossível de tão grandioso. E os nossos olhos, que viram turvo durante tanto tempo, cansam-se depressa, velhos e usados de tanta verdade. E a verdade é muitas vezes cruel.
Apercebo-me tarde que a inocência é o mais belo adjetivo que se pode ser. Tudo dói com mais força quando se é inocente, dai haver tão pouca. Dai ser impossível de se manter, obrigados a crescer depressa demais para que não nos tirem os olhos. E a saudade, aquela tão portuguesa, faz-me finalmente  perceber o porque de para passar o Bojador, se ter de passar além da dor.