quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Adeus - palavras gastas



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Isto do efeito borboleta leva-me mais tempo do que eu gostaria, isto de pensar agora em futuros verdadeiros ou alternativos, futuros do presente ou do passado. E pensar que pequenas coisas, pequenas palavras, gestos, acções, mudam completamente… ou melhor… mudaram completamente a minha vida. Bastava um sim, ou um sorriso no momento certo. Eu sussurrava ao som do vento, a trovoada respondia não. O tempo passou e foi andando, chegou uma nova estação, e foram-se as flores. Taparam-se os buracos feitos para a ventania. Um de nós veio tarde ou cedo demais. Sim, podíamos ter sido mais.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012


É demasiado tarde para ir atrás. Demasiado cedo para ir em frente. Existem sempre dois sentidos e nunca se pode saber bem por onde começar a escolha. Normalmente começa pelo lado que nos deu mais certezas. Pelo lado que nos parece menos labiríntico ou por onde nos parece que levaremos menos chapadas, menos nãos. Tou farto dos não e das chapadas sem mão. Sou filho do amor, e sem ele sou como os pulmões vazios. Ter alguém que possa não aguentar tudo o que tenho para dar ou que não tenha o suficiente para me presentear, voltando aos pulmões, é como viver em ar rarefeito, impossível de me alimentar. Não sei se isto só acontece nos filmes, e se sim, que se fodam todos os senhores de Hollywood, mas eu queria encontrar o amor da minha vida. Queria olhar nos olhos de alguém e saber que aquela pessoa era tudo o que eu queria… E talvez isso até aconteça… Acho que até é capaz de me ter acontecido, mas estas histórias têm sempre dois lados e o que é o amor se só houver um emissor? É a velha teoria da comunicação não é?
Em tempos desliguei a televisão e comecei a escolher os meus próprios filmes, para poder escolher os menos ilusórios. Há pouco tempo encontrei num filme um discurso de uma das personagens, que eu concordara há demasiado tempo, sem nunca ter conseguido explicar por palavras. A teoria baseava-se um pouco nisto das ilusões de Hollywood e ele dizia que os homens são bastante mais românticos que as mulheres. Explicou porquê ao dizer que os homens até podem ter várias mulheres antes ou depois, mas quando encontram a certa ficam com ela até ao fim, fisicamente ou não, chegando a mudar ideias e convicções. Enquanto que as mulheres, passam a vida toda à procura do príncipe encantado, mas passados os anos de ilusão, casam-se com o que lhe pode dar a vida mais estável. Em teoria acredito nisto. E contínuo à espera da certeza, continuo à espera. Já que só se pode percorrer um caminho de cada vez, e é demasiado tarde para ir para trás, e demasiado cedo para ir em frente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


Deixou- me com os joelhos no chão. Palavras ditas em vão. Nunca me deixes, dizia-me nos olhos. E a história repete-se a si própria. Desceu as escadas mais devagar desta vez… a velhice fez com que a história desta vez demorasse mais tempo a chegar ao mesmo ponto de sempre. Aquando dos meus joelhos se esfolarem na gravilha. Histórias contadas em frases dobradas dentro de envelopes.

Deixa lá, hoje em dia a única forma de eu não me sentir com medo é estar sozinho. Sozinho caio… Sozinho precipito-me sem força nas pernas para o chão, mas precipito-me para o sítio mais seguro que já conheci. Assim que as luzes se apagam, caio no chão em segurança.

Hoje escondo-me na noite, no escuro, sozinho… nem a minha sombra me ouve. Converso com ele na minha cabeça para tentar perceber o que correu mal. Precisava de mais espaço, dizes tu… Logo tu… Espero que te sintas sozinho sem mim. Espero que sintas a minha falta. Querias que te desse menos? Mas se te desse menos como poderia ser mais? Se fossemos menos como poderíamos ser mais? Não sei.

Deixa lá, ele era amargo… Até no próprio dia de anos era amargo… Vivia a dizer que eu lhe punha palavras na boca, mas a seguir fazia o favor de as cuspir cá pra fora. Como se caíssem bombas na minha consciência. Como é que ia crescer assim? Aposto que era capaz de fazer o mesmo caminho centenas de vezes…

Vou-me manter no meu quarto escuro, enquanto chover lá fora. Enquanto me sentir engolido pelo mundo. Antes dormia em lágrimas quando tu apareceste, vou voltar às lágrimas, à espera que apareças de novo.

terça-feira, 30 de outubro de 2012


No nevoeiro afundado,
sem horizonte,
cerrado.

No mar gélido navegado,
sem norte,
encruzilhado.

No deserto esquecido,
sem rumo,
sem - infortunável - súplica ou rogo.

Caminho de olhos fechados e mãos algemadas,
se contigo à minha frente,
para sempre. 

sábado, 13 de outubro de 2012


Há pessoas que se perdem nas risadas altas, nas dores mais fáceis e nas vinganças mais básicas. Eu perco as pessoas que quero, porque nunca as achei realmente, e na idade não vêm todos da mesma maneira. Porque a distância ensina-nos a crescer e porque ensina as pessoas a terem que nos merecer. Com vergões na carne que o tempo apagará, fica a desilusão e a mágoa marcadas para sempre, porque é nas coisas mais simples fáceis básicas, que se descobre a pele e mostram os fumos negros e distorcidos. Venha a vossa dor e a vossa inveja, que o karma chegará. É óbvio que para se conseguir qualquer coisa grande se tem de pagar com outra de valor equivalente, tem de haver sacrifícios, e eu já fiz os meus. 

domingo, 9 de setembro de 2012


Perdido. As minhas mãos e os meus pés sem compasso, sem tempo e sem o mercúrio que não sei bem onde fui buscar anteriormente. Virtualmente morto, etereamente morto. Como se o meu coração andasse pelo espaço sem noção da duração, do clima, da época. Envelhecendo passo a passo sem andar, envelhecendo como uma estaca pregada no solo enlameado. Com o vento e a água a correr e escorrer por mim e oxidando as articulações que ainda funcionam. Com o cavalo à solta dentro de um estábulo e o pássaro a voar dentro da gaiola. Estímulos, são tantos, mas tantos são quanto mais estímulos são, e mais confusão é. E é grande, gigante. Estou perdido e não sei falar a língua da minha cabeça, estrangeiro dentro de mim próprio, estranho a esta casca. E à medida que a carapaça aumenta, que mais me fecho dentro de mim próprio, mais corro em ruas apertadas e me afasto de onde quero ir e mais me perco e mais me fujo. Tornando-me estrangeiro dentro de mim próprio…